Soldadinhos de chumbo

Era uma vez um garotinho chamado Marcos. Ele tinha uma coleção de soldadinhos de chumbo que amava muito! Não tinha problemas em emprestá-los para os colegas desde que eles cuidassem bem de seus bonequinhos. Os soldadinhos eram tão bem cuidados e amados que alguns amigos de Marcos chegaram a fazer proposta de trocas.

– Por favor, Marcos! – disse Lara –, você pode ficar com a minha coleção de conchas inteirinha!

– Eu dou todas as minhas cartinhas Pokemon – implorou Caio –, em troca de um soldadinho de chumbo, esse mais brilhante aqui, ó…

Mas a resposta era sempre a mesma:
– Não posso, gente! Vocês não sabem os nomes deles, nem o que cada um gosta, seus medos, seus sonhos. Nem o potencial de cada um vocês conhecem. Eu os conheço e eles precisam do
meu cuidado.

Uma vez, Marcos estava brincando com seus soldadinhos e imaginou como seria legal se eles pudessem falar e se mexer de verdade, podendo viver todo o heroísmo que ele acreditava que
seus bravos guerreiros possuíam em suas aventuras imaginárias. Nesse mesmo instante – talvez movida pelo amor que Marcos sentia pelos seus bonecos – uma fada apareceu no quarto de Marcos! Ele ficou muito assustado, mas ao mesmo tempo maravilhado com a luz azul, rosa e amarela que encheu seu quarto – parecia que o amanhecer havia invadido todo o ambiente.

– Não tenha medo, Marcos – disse a fada numa voz suave e encorajadora. – Meu nome é Aurora, e fiquei interessada no seu desejo.

– Que desejo? – perguntou ele com medo. Ele não havia falado nada, apenas pensado.

– Seu amor por esses soldadinhos é tão forte que não pude deixar escutar seu coração cantando para que eles tivessem vida. É isso que você quer?

– S.. Sim… – disse ele, ainda confuso. Sim, eu gostaria que eles tivessem vida, que fossem como nós, seres humanos!

– Muito bem! Isso não será algo fácil, você verá. Sacrifícios serão necessários. Mas estou interessada em ver até onde vai o seu amor por esses bonecos.

Ela não tinha varinha de condão como as fadas tradicionais, nem usava pozinho mágico. As palavras dela soavam como música e tinham um peso de verdade, tão solene que até o vento ficou em silêncio para ouvir o que estava sendo dito. Enfim um clarão mais forte que o
primeiro encheu o quarto onde estavam, reforçando a intensidade do momento com um som que parecia o de uma orquestra. Depois, o silêncio e a escuridão. Marcos esfregou os dois
olhos para ver se voltava a enxergar direito e aos poucos foi percebendo que tudo parecia normal, nada era diferente. Os bonecos não se mexiam, continuavam de chumbo.

– Será que foi um sonho doido?
Ele já ia guardando os bonecos, um pouco frustrado já que a expectativa de ver seus soldadinhos vivos era grande, até que, ao pegar um deles, ouviu uma voz baixinha mas forte reclamando por estre seus dedos:

– O que você está fazendo? Deixe-me no chão!

Com um susto, Marcos soltou o boneco, que já ia caindo ao chão. Sorte que ele tinha bons reflexos e conseguiu pegá-lo antes que batesse no piso.

– Soldado Rian… é você?

– Claro que sou eu! Peço a gentileza de me colocar no chão.

Marcos não estava entendendo. O soldado podia falar! E percebeu que os outros de sua coleção também resmungavam no canto do quarto.

– Vocês estão vivos! A Aurora trouxe vocês à vida… Que legal!

Mas uma coisa parecia estranha: eles podiam falar, mas não podiam se mexer. Marcos colocou todos os bonecos enfileirados, tentando entender o que estava acontecendo.

– Não imaginava que isso fosse possível – vocês estão falando! Mas quando ouvi o que a fada Aurora disse que faria pensei que vocês se tornariam pessoas de verdade para entrarmos em uma aventura emocionante. Porque vocês não podem se mexer?

– Ora essa – disse a tenente Jordânia – não é óbvio? Somos de chumbo, não podemos nos mexer.

– Mas com aquele poder todo, pensei que ela pudesse transformar vocês.

– Ela bem que queria – disse o soldado Thomas –, mas preferimos viver assim. É o que somos!

– Mas assim vocês não podem se movimentar! Cabo Charles, você era o mais bravo e amigo de todos. Devia ver nas nossas aventuras, como você saltava alto e resgatava pessoas, enfrentando seus medos. E você, soldado Maria, era a soldado mulher mais corajosa que eu já
vi. Enfrentou sozinha a ameaça do Imperador Carter, que queria destruir todo o exército de vocês.

– É, essas histórias parecem interessantes, mas nossa estrutura parece dar firmeza para nós. Não sei se traria alguma vantagem a possibilidade mexermos nosso corpo. Sem contar que
deve doer muito isso de você ser transformado – imagina, mudar de chumbo para osso e carne? Dói só de imaginar!

Marcos ficou frustrado. Na verdade, ele ficou extremamente triste – “como eles não querem ficar vivos por completo? Como eles preferem ficar presos ao invés de experimentarem aventuras?”. Isso o levou a chorar. Os soldadinhos nem deram tanta importância para a tristeza de seu dono, afinal eles estavam convencidos de que o estado deles era o melhor. A cena era mesmo de cortar o coração! Tanto que, a compaixão que o caso exigia chamou novamente a atenção de Aurora. Ela tocou no ombro de Marcos gentilmente e começou a chorar junto com ele. Ele sem levantar a cabeça disse entre soluços: “como eles podem ser tão
cabeças-duras! Não sabem que eles são melhores do que isso?”

– Na verdade, eles não sabem! – Disse Aurora, enxugando as lágrimas de Marcos e as suas próprias. – Alguém precisa mostrar isso para eles.

– Mas eu já falei. O que mais eu posso fazer?

– Falar não convence tanto quanto mostrar. O ideal era que alguém como eles aceitasse passar pelo processo completo de transformação para que se convençam de que há um jeito melhor
de viver.

– Mas quem poderia ser essa pessoa? Ninguém parece convencido disso…

– Há um jeito! Mas, como eu disse no início, exige um sacrifício muito grande.

– Por favor – disse Marcos ansioso – diga-me o que pode ser feito!

– Alguém que ame demais esses soldadinhos obstinados, precisa se transformar em um deles, tornar-se chumbo, para que passe pelo processo de transformação que eles precisam passar,
provando que há um jeito melhor de viver.

– Eu amo esses bonecos. Topo fazer isso!

– Mas, Marcos – disse Aurora com uma voz grave, mostrando a seriedade do desafio –, não será nada fácil. Seus soldados têm razão – é muito dolorida a mudança! Além do mais, não é garantido que todos serão convencidos. Mesmo assim você estaria disposto? Você abriria mão de ser um ser humano, para se tornar um soldadinho de chumbo?

Um frio passou pela barriga de Marcos. Ele amava ser um ser humano – poder brincar, se mexer, abraçar, comer, dormir, gargalhar… Mas ele queria ver seus soldadinhos experimentando as coisas boas dos seres humanos e, melhor, podendo fazer aquelas coisas
que ele sabia que os bonecos eram capazes de fazer de acordo com o potencial de cada um.

Depois de alguns segundos de reflexão, ele disse, decidido:

– Eu estou disposto!

Diferente da primeira vez, a fada apenas deu um beijo na testa de Marcos, e em um piscar de olhos ele se viu transformado em um soldadinho de chumbo. Era estranho, porque ele nunca
havia se sentido tão duro, tão imóvel, mas ao mesmo tempo a posição era confortável, não parecia prejudica-lo a princípio. Contudo ele estava focado no seu propósito – “quero mostrar
para meus soldadinhos que eles podem ser melhores”. Quando ele abriu os olhos viu que estava no meio deles e todos estavam se perguntando como Marcos havia se transformado em chumbo e por quê. Como ele não conseguia mexer seu corpo, apenas seus olhos e boca,
ele só via o que estava em sua frente. Não percebeu, portanto, que ao seu lado uma voz dizia é a hora de começar a transformação: tente virar a sua cabeça. Na hora uma dor insuportável
atingiu seu pescoço, como se várias facas perfurassem sua pele. Ele gritou de dor! Ao som do seu berro, os demais soldadinhos começaram a ter reações diferentes.

– Esse garoto é doido! Vai acabar morrendo de tanta dor.

– Coitado, por que ele está se sacrificando tanto?

– Desista, você não vai aguentar!

Se ele tivesse lágrimas com certeza não pararia de derramá-las. Mas a lembrança de como era bom ser um ser humano e de que valeria a pena passar por aquilo o motivou a continuar.

– Agora, abaixe seus braços – sussurrou a voz.

Marcos ficou feliz ao conseguir ver que era Aurora que estava do seu lado, dando as orientações. Mas o sofrimento era muito grande! Seus braços pareciam queimar a medida que ele os tentava baixar. E os gritos só aumentavam.

– Pare com isso, seu doido! Não vê que você está deixando de ser um soldadinho de chumbo? Você está nos envergonhando!

Poucos eram os que se compadeciam, e destes poucos, somente alguns lembravam do que Marcos havia falado e demonstrado anteriormente – “ele parece nos amar de verdade, está
sofrendo por nós!”

Marcos achou que não aguentaria, mesmo já podendo mexer cabeça e braços.

– Por favor, não sei se serei capaz de aguentar mais! – disse ele.

– Marcos, você os ama de verdade, eu sei disso – disse Aurora. – Não desista agora! Vamos, mexa seu tronco e pernas!
O coração de Marcos, que antes era de chumbo duro, agora batia forte, tão forte que parecia que iria enfartar! Doía os braços, o peito, e já era possível ver lágrimas saindo dos seus olhos de chumbo. Nunca no mundo dos soldadinhos alguém havia sentido tamanha dor!

Alguns bonequinhos pensaram até em matar Marcos de tanta raiva que sentiam dele por estar fazendo esta transformação. Mas ninguém poderia matá-lo – ele mesmo estava se entregando à “morte”, ao quebrar a dureza do chumbo que poderia impedi-lo de ser quem ele de fato era.

No final da transformação, Marcos já estava exausto e acabou caindo no chão. “Morreu!” alguém disse. E, então, muitos fecharam os olhos, pensando que finalmente aquele traidor havia morrido. Outros, também de olhos fechados, nem queriam pensar no que viram, apenas
aproveitar sua dureza de movimentos. Mas alguns, de forma milagrosa, viram que de seus olhos saiam lágrimas! E que algo batia dentro do peito deles. Sem saber, a transformação de Marcos liberou um tipo de poder mágico que começou a transformar alguns soldadinhos de
chumbo. “Eu quero poder me mover para abraça-lo” disse a tenente Jordânia. E meio desengonçada, começou a caminhar em direção a Marcos, que agora possuía a pele ainda resistente e na cor chumbo, mas seus membros eram maleáveis – ele não estava preso à
dureza do chumbo. O máximo que ela fez foi se ajoelhar – ainda estava meio dura. E como um milagre Marcos se levantou, como tivesse acordado de um sono, e deu um abraço forte em Jordânia.

– É possível! É possível você mudar – acredite em mim. Eu consegui vencer a dureza.

Nessa hora, o mesmo clarão cor de nascer do sol que havia invadido o quarto de Marcos, na primeira vez que Aurora apareceu, voltou a reluzir. E Marcos se viu deitado em sua cama, como criança novamente. Tudo parecia ter sido um sonho, mas alguma esperança maravilhosa havia surgido no coração de Marcos: coisas que parecem impossíveis, como chumbo se tornar maleável, podem de fato acontecer!

Conto baseado na analogia do soldadinho de chumbo de C.S.Lewis, no livro Cristianismo Puro e Simples, que explica a encarnação do “Filho de Deus que se fez homem para que os homens pudessem se tornar filhos de Deus”.

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