Visita impetuosa

Silêncio. Estou seguro, envolvido na profundidade deste estado de sossego aparente. Se fecho os olhos, debruçando o livro por sobre o peito, enquanto me ajeito na cama que está ao lado da janela, o silêncio toma forma, e se traduz em gotas que caem num ritmo constante, mas descompassado, criando uma melodia agradável. Folhas, poças, terra recebem a música da quietude, que preenche a noite, tecendo um ambiente propício a uma leitura aprazível.

Incomodo. Estranhamente, vejo-me desconcertado e desconcentrado da leitura que se fez ideal. Concentro-me mais no ambiente, que, a propósito, não quer minha atenção e, sim, quer ouvir as palavras escritas que parecem casar com o momento.

Trovão. O martelo de Thor rasga o silêncio em pedaços e seu som se faz ouvido em passeata, ribombando a cada pegada, lenta, forte e aterrorizante. O vento se encarrega de ser seu transporte e, mirando o leste, carrega indiscreto o estrondoso som por sobre os morros de Minas. Ouso enfrentar seu dono, encarando-o nos olhos: “quem es tu e o que desejas alcançar com tamanho estardalhaço?”, perguntei. E, em resposta nada sutil, ouvi-se de forma até gentil a réplica: “sou apenas o mensageiro da chuva. Atrapalhei? Perdão, não era meu propósito. Só queria acompanhar-te, aproveitando de sua leitura e da poesia do momento”.

Silenciei-me.

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Texto inspirado na chuva que ouço lá fora, de dentro da casa do Zilbinho, Marô, Lis e Júlia. Bom esse cantinho!

Imagem: Blog Inspire me

Amizade e a estrela

Se a estrela é toda a riqueza do céu

Seu valor passa a ser ínfimo

E o mistério do que é infinito

Continua inexplorável

 

Ao passo que

Se as constelações me inspiram

A mergulhar em anis desconhecidos

Aí sim encontro valor em viajar

Na beleza de cada estrela

 

Há coexistência de sentido:

Da estrela ser parte do todo que desejo sondar

E passo a caminhar ao seu lado

Ser seu amigo e cúmplice

De verdades gêmeas

Nascemos para o mesmo fim:

Desfrutar da beleza do intangível

E voar

 

Se sua companhia é todo o sentido da caminhada

Restará à ti apenas Afeição

E o mistério de sermos dois amigos (viajantes)

Não existirá, pois não haverá caminho

 

Ao passo que

Se o caminho torna-me um explorador

E nele encontro um irmão de caminhada

Sua companhia será um presente:

Não caminho só, pela verdade

 

Há amizade por um sentido:

Dois que caminham lado a lado

Absortos em um interesse comum

Imersos na luta de explorarem as constelações

E acabarem se tornando exploradores de si

Sendo mais de si mesmo quando compartilham

Do mesmo gosto por sonhar

E andar

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Baseado em trechos do livro “Os Quatro Amores” de C. S. Lewis

Senhor do Tempo

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Senhor do tempo – Milton Nascimento by rolimmenezes

Uma imagem simples vem à mente. Profunda e bonita, como a poesia. Dois amigos, Milton e Caetano, poetas por terem o coração sensível ao seus anseios e ao desejo do mundo por sentido. Acordam cedo, ansiosos, como se fosse este o momento esperado para receberem do alvorecer a resposta que aguardavam. Sentam-se em silêncio sobre um banco de madeira, um ao lado do outro, na varanda da casa velha de uma fazenda, posta calidamente em harmonia sobre alguma das ondas do mar de morros de Minas. Um café forte na mão para aquecer o corpo, e os olhos atentos ao horizonte, que dança em cores sortidas a medida que o sol faz dengo para se levantar. “O tempo dispara”, assim como o coração. E o tempo também para, e a alma registra a eternidade, a beleza do que é verdadeiro. E é justamente a busca pela verdade que faz este tempo ser eterno, precioso ambos. Isto é o que imagino.

“Quem será que manda na vida? Quem dá a partida?” pergunta um para o outro, enquanto observam a luz ser reinventada. E as perguntas me remetem a um cantor do passado. Alguém que, observando a mesma luz e o mesmo céu, em estado de contemplação se emociona, como os amigos, e, sabendo a resposta das perguntas dos nossos poetas do presente, ousa pergunta ao criador do tempo, “que é o homem para que dele te lembres?”¹

“Como é mesmo que anda o tempo? Será sempre assim tão lento? Será que passa por dentro de nós?”. “Sim”, diria outro poeta, mais antigo, enquanto balança a cabeça: “a eternidade passa e permanece em nós, abrigada, nos instigando a conhecê-la, nos movendo a desfrutar dela em cada tempo da vida. Pois há tempo para tudo²”. Se ouvissem essa intervenção, Caetano e Milton sorririam em concordância, e voltariam ao silêncio contemplativo. E o silêncio não se conteria e logo daria espaço para mais perguntas: “será que é o sol que ordena e o tempo que obedece? Ou será que o sol só desce, quando o tempo eleva a luz?”.

A resposta não é nenhuma das opções. E fico maravilhado ao perceber que numa simples reserva de tempo — seja para ver o nascer do sol ou para a árdua mas encantadora tarefa de traduzir em música o sentimento que se observa na melodia do silêncio — dois poetas são agraciados com a resposta certa “nada conta além da graça do amor!”. E é verdade. Tudo é vaidade e correr atrás do vento³ — já dizia o pregador. A não ser aquilo que permanece, que está acima do sol, projetado pelas mãos do poeta maior que nos põe dependentes deste amor. “O amor que é raio e centro”, caminho e destino. “Eternidade e momento”. Nosso redentor. O único que dá sentido ao tempo: o (Deus) amor.

¹ Salmo 8.3 | ² Eclesiastes 3 | ³ Eclesiastes 1.2

Ano velho: aprendizado de uma caminhada

Tomei a esperança por companhia esse ano e o aprendizado como lema. Isso pra tentar crescer um pouco, ser gente grande e me tornar criança — mesmo largando as coisas de menino. Voltar a voar mais alto, porque tinha esquecido como era sonhar, mas vivendo minha realidade mais de perto. Tive que aprender a ser responsável na labuta, por que agora sou formado e tenho muito trabalho. Não só o de trabalhar, mas de lidar comigo em outras retas e outros pontos — finais, de interrogação, de exclamação, vírgulas, reticências, todos pontuando minha mente e meus atos. Tive (e ainda tenho) que lidar comigo numa caminhada de vários focos, onde preciso escolher um só: a verdade é o caminho e é por este que eu devo andar. Andar com meus valores afinados com meus passos, pois, na teoria, me dirigem para a morada de minha doce companheira. Quero trilhar estes passos na prática.

Bom é perceber outras companhias nesse trilhar. A amizade constrói minha alma e a família é meu porto seguro — mesmo se neste há um temporal. E meus irmãos e irmãs dançam comigo, festejam nossa vida em comunidade, nossa vida de peregrino. Música boa sai do sorriso de todos eles, sinceridade da poesia de dividir o coração. Durante o dia ou madrugada a fora, estar acompanhado da sentido ao que é certo. E a caminhada traz mais ensino: bom é aprender a ser amado pelo que sou e deixar de ser útil para ser amigo. Bom é aprender dar sem barganhar, por que te torna livre para amar o humano inteiro e não o que ele pode te dar.

Eu vi coisas boas. É bom viajar com a irmã e conversar com ela. É bom receber viagem de irmãos. E primos e tios e uma festa de vô, outros primos e outros tios. É ruim sentir saudade de quem está indo. E de quem partiu e não volta mais é pior ainda. (É dolorido demais o peso da bagagem que a morte deixa com a gente. Mas é bom saber que ela vai sentir aquilo que ela nos faz sentir). É bom interpretar em palco o que se vive e viver aquilo que se diz acreditar. É bom liderar, aprendendo a ser liderado. É bom ouvir a voz que grita silencioso “sossegai mar revolto”. E descansar. E voltar a andar no ritmo certo. É terrível esquecer o ritmo, o compasso, e dançar desajeitado é uma vergonha. É bom ver seus companheiros te lembrando do ritmo certo. Não estou sozinho mesmo. É bom sentir a esperança te beijar.

É bom reconhecer que o ano foi bom e sua bondade será carregada comigo, porque me tornou outro. O que me deu já faz parte de mim. Tudo bem que há lembranças de tropeços, paixões incompletas, falhas vergonhosas e omissões. Mas até isso faz parte do treinamento, da caminhada. Até isso minha companheira torna em coisa boa. Também pudera: sendo a esperança a filha do meu Poeta, seguiria por bandas diferentes? É claro que não. A certeza das coisas que se esperam provem deste que traz para o presente o vislumbre do que nos fortalece: um futuro pleno, com todas as coisas boas que pude experimentar este ano, mas sem nenhuma gota de lágrima — a não ser de felicidade. Continuo caminhando, sempre esperando.

Poesia do Descanso

Hoje eu tirei o dia pra descansar. Meus pulmões precisavam mesmo de ar puro, afinal tenho a impressão de que o mofo do meu quarto está montando uma colonia filha dentro deles. Foi bom respirar ar puro. Foi bom oferecer aos meus olhos a oportunidade de apreciar a beleza da natureza do sítio de minha mãe. Lá tem morros lindos, com uma grama viva por causa da chuva recente. E hoje em especial o sol deu o ar da graça, banhando os pequenos lagos, que pareciam sorrir ao refletir sua luz. A copa das árvores parecia ter sido pintada de dourado. O céu estava perfeito: o tom certo de azul, quantidade exata de núvens, que filtravam alguns dos raios do grande astro e deixava outros banhar a paisagem. O espaço parecia cantar. Havia duas maritacas que competiam pelo grito mais alto. De vez em quando dançavam ao ar, mas voltavam sempre para o mesmo galho. Distante, próximo do mar de pinheiros, que ensaiavam passos suaves ao som da melodia que se ouvia, um singelo pássaro branco cortava o céu. Paz. E um sorriso se desenhou em meus lábios. Estava mesmo feliz com o descanso. Aproveitei, então, o momento de sossego lendo. Às vezes a paisagem me chamava e, claro, não exitava em atender. Valia a pena dividir à atenção entre uma boa história lida e a poesia recitada ao redor. O que saía de mim, além do sorriso, era gratidão ao Deus da graça. Não há duvida em minha mente e coração: a poesia veio dele e fui agraciado em ouví-la. Obrigado.

sublime sensação

Foto: sxc.hu

Gosto dessa sensação meio adocicada. Gotas transparentes de orvalho que refratam arco-íris ao nascer do sol. Um sorriso tímido em uma pele branca, um pouco rubro de vergonha. A sensação de alegria, na velocidade dos galopes de cavalos selvagens, em uma colina totalmente verde aveludada. Sentimento aconchegante, como o calor de uma lareira em tempo de frio, acompanhada de um edredom, um chocolate quente e um bom livro. A emoção de um cobertor de estrelas, de fundo negro, meio azulado, e canção de uma lua que sorri para o mundo, que dorme em silêncio ao seu brilho. É a sensação sublime de experimentar um pedacinho do dom perfeito, que expressa a perfeição de seu criador. Melhor do que paixão, que é avassaladora, assim como o tempo de sua permanência (passageira paixão), é a serenidade do amor que cai cálido por sobre os homens e seus sonhos. É eterno, apesar de não saber aqueles que chegam a experimentá-lo. Pensam estes que tal sentimento vem apenas embrulhado em papel de seda, num tom de anil. No entanto, é bem capaz que venha amassado algumas vezes, até sujo ou empoeirado. Apesar disso, se olhado bem de perto, a imperfeição de sua capa não desvanece a perfeição do conteúdo e a eternidade de seu poder, de sustentar o mundo com um suspiro. Por esse sentimento que inspiramos e vivemos inspirados a degustar apenas parte do sentimento sublime. Sublimação, que te leva ao infinito, mesmo quando em dor, com este sentimento, é possível encontrar Deus.

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