Visita impetuosa

Silêncio. Estou seguro, envolvido na profundidade deste estado de sossego aparente. Se fecho os olhos, debruçando o livro por sobre o peito, enquanto me ajeito na cama que está ao lado da janela, o silêncio toma forma, e se traduz em gotas que caem num ritmo constante, mas descompassado, criando uma melodia agradável. Folhas, poças, terra recebem a música da quietude, que preenche a noite, tecendo um ambiente propício a uma leitura aprazível.

Incomodo. Estranhamente, vejo-me desconcertado e desconcentrado da leitura que se fez ideal. Concentro-me mais no ambiente, que, a propósito, não quer minha atenção e, sim, quer ouvir as palavras escritas que parecem casar com o momento.

Trovão. O martelo de Thor rasga o silêncio em pedaços e seu som se faz ouvido em passeata, ribombando a cada pegada, lenta, forte e aterrorizante. O vento se encarrega de ser seu transporte e, mirando o leste, carrega indiscreto o estrondoso som por sobre os morros de Minas. Ouso enfrentar seu dono, encarando-o nos olhos: “quem es tu e o que desejas alcançar com tamanho estardalhaço?”, perguntei. E, em resposta nada sutil, ouvi-se de forma até gentil a réplica: “sou apenas o mensageiro da chuva. Atrapalhei? Perdão, não era meu propósito. Só queria acompanhar-te, aproveitando de sua leitura e da poesia do momento”.

Silenciei-me.

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Texto inspirado na chuva que ouço lá fora, de dentro da casa do Zilbinho, Marô, Lis e Júlia. Bom esse cantinho!

Imagem: Blog Inspire me

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Senhor do Tempo

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Senhor do tempo – Milton Nascimento by rolimmenezes

Uma imagem simples vem à mente. Profunda e bonita, como a poesia. Dois amigos, Milton e Caetano, poetas por terem o coração sensível ao seus anseios e ao desejo do mundo por sentido. Acordam cedo, ansiosos, como se fosse este o momento esperado para receberem do alvorecer a resposta que aguardavam. Sentam-se em silêncio sobre um banco de madeira, um ao lado do outro, na varanda da casa velha de uma fazenda, posta calidamente em harmonia sobre alguma das ondas do mar de morros de Minas. Um café forte na mão para aquecer o corpo, e os olhos atentos ao horizonte, que dança em cores sortidas a medida que o sol faz dengo para se levantar. “O tempo dispara”, assim como o coração. E o tempo também para, e a alma registra a eternidade, a beleza do que é verdadeiro. E é justamente a busca pela verdade que faz este tempo ser eterno, precioso ambos. Isto é o que imagino.

“Quem será que manda na vida? Quem dá a partida?” pergunta um para o outro, enquanto observam a luz ser reinventada. E as perguntas me remetem a um cantor do passado. Alguém que, observando a mesma luz e o mesmo céu, em estado de contemplação se emociona, como os amigos, e, sabendo a resposta das perguntas dos nossos poetas do presente, ousa pergunta ao criador do tempo, “que é o homem para que dele te lembres?”¹

“Como é mesmo que anda o tempo? Será sempre assim tão lento? Será que passa por dentro de nós?”. “Sim”, diria outro poeta, mais antigo, enquanto balança a cabeça: “a eternidade passa e permanece em nós, abrigada, nos instigando a conhecê-la, nos movendo a desfrutar dela em cada tempo da vida. Pois há tempo para tudo²”. Se ouvissem essa intervenção, Caetano e Milton sorririam em concordância, e voltariam ao silêncio contemplativo. E o silêncio não se conteria e logo daria espaço para mais perguntas: “será que é o sol que ordena e o tempo que obedece? Ou será que o sol só desce, quando o tempo eleva a luz?”.

A resposta não é nenhuma das opções. E fico maravilhado ao perceber que numa simples reserva de tempo — seja para ver o nascer do sol ou para a árdua mas encantadora tarefa de traduzir em música o sentimento que se observa na melodia do silêncio — dois poetas são agraciados com a resposta certa “nada conta além da graça do amor!”. E é verdade. Tudo é vaidade e correr atrás do vento³ — já dizia o pregador. A não ser aquilo que permanece, que está acima do sol, projetado pelas mãos do poeta maior que nos põe dependentes deste amor. “O amor que é raio e centro”, caminho e destino. “Eternidade e momento”. Nosso redentor. O único que dá sentido ao tempo: o (Deus) amor.

¹ Salmo 8.3 | ² Eclesiastes 3 | ³ Eclesiastes 1.2

perfeita canção

E se dissesse que é verdade ser o canto de uma garotinha o sonho mais emocionante de uma noite de domingo?

Como pode ter um poder tão encantador a música? Ainda mais na voz de uma criança?

Eu não sei. O que sei é que até o coração mais gélido se derreteria ao som tão calorosamente aconchegante de uma criança cantando com o coração. Não duvido ser esse poder grande o suficiente, capaz de levar adultos brutos, que se consomem e vociferam em meio a guerras estúpidas ou discussões sem sentido por causa de uma partida de futebol, a pararem no tempo, calados, por terem seus corações arrebatados por um sentimento que os constrangem a permanecer assim, mudos. Confesso que algumas lágrimas se espremeram entre os dedos do meu orgulho, que preferiu não deixar evidente quão bobo fico ante a situações como esta. Fui tolo, claro. Mas creio não ter deixado passar a mensagem. Graças a Deus! A mensagem de que os céus ainda anseiam por ver os olhos da humanidade bem abertos, para contemplar milagres gloriosos, espetáculos de artifícios coloridos e sonhos majestosos, todos eles guardados em coisas simples: a bela e grande lua cheia que se levanta no céu de outono, a borboleta que corta o vento e emudece o transito infernal, o canto do coração de seres singelos, como o de crianças.

Não é por acaso que um poeta da antiguidade já, em seu tempo, percebeu ser obra divina a força que sai do choro e do canto desses pequenos seres. Sinal de que Deus não desistiu de seus sonhos. Boa essa esperança!

Foi lindo o vôo que experimentei essa noite. Foi lindo ver um pouquinho da luz de Deus, no momento em que arrisquei pedir mesmo que Cristo abrisse meus olhos (e isso embalado por uma garotinha e sua meiga voz)… Foi lindo…

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O Som do Coração

Faça silêncio primeiro.
(pausa)
Doce é o som do silêncio.
(pausa)
Depois, perceba as notas…
As que saem do coração.
(pausa)
É…
(sorriso)
Bom, não é?
(outro sorriso)
Melhor quando fecham-se os olhos.
Tem um som doce e seco.
Pálido, mas colorido.
O som de um mensageiro.
Aquele que convida alguém.
Aquele que anuncia a chuva.
Barulho de xilofones,
Gotas cantantes,
Que me fazem chorar
De alegria…
(mais outro sorriso)
(uma lágrima)
Já te disse sobre essa chuva?
Agora as gotas caem pesadas
E os raios ricocheteiam,
cruzando os ares,
Tocando o surdo,
Os tons,
Chocando os pratos.
(sorriso… suspiro emoção)
Mas não é esse o som do medo.
Esse teria o gosto de outra coisa.
O que sai de mim é algo mais forte,
Que se traduz em trovão e na voz suave de uma soprano.
Esta é a expressão do que corre em mim:
Som de milhares de cavalos
Galopando
Ou uma queda d’água.
Chuva pesada.
Leve.
Que me Leva.
(pauso…)
(suspiro…)
(sinto…)
E nesse momento,
Como um maestro que levanta a batuta,
Ergo o rosto
E as mãos são estendidas.
Molha os olhos.
Umedece o sorriso.
“Humildece” minha alma.
Danço com o vento
Ao cantar da chuva
E transbordo do som mais lindo,
Capaz de ecoar além das montanhas…
De sentir o céu mais próximo de nós.
E a canção que se canta
Encanta e traduz
O som que sai do coração
(pausa)
(suspira)
(melodia)
Nota final:
Amor!

Inspirado no filme O Som do Coração

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