Uma Grande Lição (parte I)

Na última sexta-feira de 2011 assisti ao filme Quase Deuses. Excelente. Terminei-o com a sensação de que precisava repensar minhas atividades, meus sonhos: eu tinha que marcar o mundo de uma forma mais significativa. Tolice da minha parte. Não pelo desejo de transformar o mundo, mas por não ter sido sensível o suficiente para ver que a lição do filme é outra e muito mais significativa.

A personagem principal, Vivien Thomas, era um negro norte-americano que herdou o ofício do pai marceneiro com exímia habilidade. Contudo, sonhava ser médico. Isto dentro de uma realidade ainda repressiva de discriminação, em que uma pessoa “de cor” tinha que utilizar banheiros específicos para sua raça, além de sentar em espaço separado no ônibus e dar passagem para um branco que atravessasse seu caminho – repugnante. Em um certo momento da vida viu uma oportunidade de trabalhar como faxineiro em um excelente laboratório de pesquisa coordenado por um médico da Universidade Johns Hopkins, o doutor Alfred Blalock. Era o lugar ideal para se envolver com a área médica, e o fato de ser faxineiro não impediu Vivien disso. Seu interesse pela medicina, seu “autodidatismo”, sua incrível capacidade de manejar instrumentos cirúrgicos e o cuidadoso método de registrar todas as descobertas realizadas, foram percebidos rapidamente pelo doutor Blalock, e juntos foram pioneiros no desenvolvimento de técnicas para cirurgia cardíaca. Vivien era apaixonado pelo que fazia.

Paixão. Esta é a lição principal do filme. Depois que eu me dei conta disso vi como muitas das minhas ambições, apesar de legítimas estão pautadas mais no resultado que elas podem trazer do que na forma como desfruto do processo para alcançar o que desejo. É como se o meu desejo por realizar algo surgisse apenas depois que sonhasse com a revolução que gostaria de causar no mundo. Sentimento puramente orgulhoso e, por isso, totalmente ignóbil. Foi interessante perceber isso, pois me fez lembrar de uma conversa que tive com minha chefe algumas semanas antes. Ao final de uma reunião de avaliação e planejamento de minhas atividades, ela compartilhou uma reflexão pessoal baseada exatamente nisso: ser apaixonado pelo que você faz, traz sentido à sua caminhada e à própria atividade. Entendi que amar o que eu faço agracia minhas atividades com um sentido mais profundo – “isto me realiza” –, e me faz desenvolvê-las melhor e, consequentemente, causar um efeito melhor e, quem sabe, transformador. É uma postura mais humilde, ausente de desejo pelo reconhecimento. Faço porque amo, e meu amor pode transformar o mundo.

A reflexão caiu como uma luva, dentro do tempo e do espaço certo. Hoje é o segundo dia de um ano novo. Estamos dentro daquele período tradicional de rever nossos planos e objetivos – sentido, coisa que o ser humano não vive sem. Que tal viver um ano apaixonado pelas coisas que fazemos e pelas pessoas que amamos? Quem sabe a revolução que isso pode causar no mundo?

Imagem: divulgação

Aprendendo a plantar

Outro dia eu plantei uma árvore. Isso é o que diria meu amigo, Pedro, com quem tive o tal privilégio. Mas a verdade é que qualquer observador afirmaria: “Você? Fala sério, Lucas. Quem plantou mesmo a árvore foi o Pedro”. E eu, pra ser sincero e honesto, teria que confirmar estas palavras — mal toquei na terra. Apesar disso, participar daquele momento foi significativo. Principalmente porque percebi alguns valores importantes por trás da atitude desse meu amigo.

Antes de evidenciá-los preciso deixar a cena mais clara. Tecnicamente, plantar uma árvore implica você exercer certa força em seu braço, utilizando uma pá (não importa o tamanho) para cavar um buraco, fundo o suficiente para receber a planta que, se for uma muda, deve ser retirada do recipiente onde foi plantada anteriormente e depositada no tal buraco, que deve ser coberto com terra novamente. Ah, claro. Antes disso tudo você deve escolher o lugar apropriado para o plantio, levando em consideração se a árvore que você está plantando será grande ou não, para que ela não seja colocada perto de outras árvores que impediriam seu crescimento. Adivinhe o que eu fiz? Exato, eu apenas sugeri o lugar onde por a planta. E isso porque meu amigo pediu minha opinião. Veja bem, não entenda mal a minha atitude. Ela não expressa de maneira nenhuma desinteresse pelo momento. Plantar árvores é realmente significativo pra mim (apesar de nunca ter feito antes) e principalmente com um amigo. Talvez dizer também que minutos depois eu teria que trabalhar, justifique meu envolvimento mínimo. Voltar ao expediente com as mãos e as roupas sujas não seria apropriado.

Agora, o interessante é que apesar desse meu pequeno envolvimento, senti que foi significativo para o Pedro que eu plantasse a árvore junto com ele. Ele disse que queria ter feito isso com uma criança, mais especificamente com um primo dele de 10 ou 11 anos, mas tinha dúvidas se este pegaria a ideia. É claro que a intenção do meu amigo era fazer com que seu primo “pegasse a ideia”, o significado de plantar uma árvore (para quem não sabe sobre este significado, pense na lição da espera pelo crescimento, ou na lição “o que você planta hoje, colhe amanhã”, ou ainda sobre a lição do cuidado que devemos ter com os nossos relacionamentos, para que eles se desenvolvam e deem frutos, da mesma forma quando cuidamos de uma árvore). Não era pré requisito ter a ideia em mente previamente. Mas acho que tão bom quanto levar pessoas a experimentarem coisas que são importantes pra gente e estas curtirem, é curtir essas coisas importantes junto com pessoas que já as consideram assim, cheias de valores. E percebi essa sensação no Pedro — “é bom compartilhar este ato com quem o valoriza tanto quanto eu”. Não posso afirmar que foi exatamente isto que ele pensou, mas foi essa a mensagem que ele passou.

Outra coisa interessante que deu pra notar nele, além desse negócio de simplesmente estar presente para compartilhar, é a valorização da minha pequena participação. Bom, eu só dei minha opinião sobre qual seria o melhor lugar. E tenho certeza que ele teria escolhido o mesmo lugar que apontei sem qualquer sugestão minha. O fato é que, mesmo sendo óbvia, minha ideia foi acatada como boa. Isso me fez refletir em como pequenas atitudes nossas podem ser consideradas, na nossa cabeça, como insignificantes e desnecessárias para outras pessoas, mas nos surpreendemos ao saber que isso fez diferença para estas. Um exemplo claro, dentro da minha realidade cristã, é o ato de orar por alguém. Eu particularmente acho muito bacana quando alguns dizem estar orando por mim. Boa parte das vezes isso me dá ânimo, além de me encher de gratidão ao ver que sou lembrado. Essas sensações só não são maiores do que ouvir alguém dizer “você não faz ideia como está me ajudando ao me informar que está orando por mim”. Porque a oração parece ser algo tão pequeno… Mas só parece mesmo. Tem um poder de nos envolver com a dor e alegria dos outros que não fazemos ideia. Coisas pequenas que são grandes! Vi que o Pedro pensa assim também. E refletir nessas atitudes, que nem ele deve ter pensado para praticá-las, tornou o plantio daquela árvore um dos momentos significativos desse ano.

Espero levar isso comigo em 2012: valorizar a presença das pessoas e a importância dos pequenos atos.

Imagem: Ambiental Sustentável

Reflexões de 1/4 de século

Próximo ano completo 25 anos. Para mim é um marco importante, afinal soma-se um quarto de século. Uma vida inteira poderia encerrar-se aos 25 anos (exagero! rs), posto que com esta idade já seria possível ter experimentado boa parte das reflexões e sensações mais relevantes. A doçura inebriante do primeiro (segundo e terceiro) amor; a lança fria da morte penetrando seu coração e arrancando parte do seu ser; a descoberta de sua identidade e do sentido dela ter sido formada; o significado real de uma família (um porto seguro, mesmo em meio a tempestade sem fim); a importância vital de uma amizade, e de como o perdão preserva a vida; o desejo intenso de dividir a vida com alguém e de que alguém confie dividir a vida com você; a lição de que é preciso amadurecer, mesmo sendo tentado a viver na infantilidade; o valor da consciência e de que é importante se permitir chorar e sorrir na hora em que se tem vontade, e não na hora em que você deseja ser percebido como alguém sensível ou feliz para ser aceito; a beleza de viver a verdade  e a leveza da graça, e de que “é melhor ser alegre que ser triste”.

Apesar de não ser um especialista em lidar com memórias, as que consigo resgatar do meu baú de reflexões mostram que vivi, até aqui, uma vida muito boa. Claro cheia de falhas, das quais me arrependo profundamente e, se fosse possível, teria escrito de forma completamente diferente. Mas existe aqui uma outra lição (belíssima, inclusive) que já pude vislumbrar no meu 1/4 de século: notas dissonantes podem compor de forma esplendida a melodia complexa e profunda da vida, tornando-a incrivelmente emocionante e profunda. Isso, claro, debaixo da regência de Deus, da sua supervisão. A verdade se encarregou de trazer a beleza, e a beleza alegrou meu coração.

Lendo até aqui, parece que estou prestes a me despedir, como se dissesse “combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”. Mas não é essa a intensão. Pode ser, sim, encarado como um texto de revisão de vida, mas não diante da expectativa do fim desta. É verdade que não descarto a triste fatalidade. Amigos meus morreram com menos de 25 anos. Contudo minha intensão se baseia mais na esperança de continuar vivendo. De forma mais poética, registro estas reflexões com a intenção de escrever uma poesia mais bela, uma prosa mais profunda, uma melodia que alegre os céus.

Mas diferente do pressuposto encontrado por trás da expressão “escrever uma nova história”, não quero ser o autor do tipo “deus”, como se tivesse o controle de todos os meandros que perpassam minha narrativa. Onisciência e onipotência são qualidades próprias do Grande Criador. Cansei um pouco de querer controlar tudo. Quero apenas submeter-me à vontade de quem pode todas as coisas — no caso, Deus. Gostaria mais de experimentar o sentimento “cantar o que vivo” e “viver o que canto”. Quero registrar o que vivo como observador, e viver o que escrevo/registro como um ser integro, guiado pela verdade. Sem cobranças, sem fardos. Acho que isso me faria encarar a vida com uma leveza maior. Veja bem, encarar com leveza. Não entenda aqui que decidindo registrar uma nova história, vou determinar momentos mais fáceis. Mesmo porque isso seria impossível para qualquer pessoa. Encarar com leveza está mais para viver como ser humano de verdade, reconhecendo minhas limitações, necessidades, mas também minhas virtudes e conquistas, além de olhar com sobriedade as erosões que vira e mexe surgem quando em tempos de seca, sem deixar de “esperançar”.

O que quero dizer na prática? Quero apenas viver, ao invés de ficar me impondo regras sobre como devo reagir diante de determinadas situações hipotéticas, ou como todas as lições aprendidas até aqui devem ser executadas sob minha supervisão e aprovação. Quem sabe assim, as tais lições tenham efeitos mais práticos e de formas mais naturais? Quem sabe esses efeitos acabam se tornando valores, que preservam a vida, os relacionamentos, a verdade, a justiça, ao invés de serem regras duras que nos engessam? Quem sabe eu me torne mais humilde e mais manso, por não ter a obrigação de estar sempre certo, sempre no controle? Quem sabe? É, eu não sei. Mas estou mesmo curioso para experimentar. Se for-me concedida a graça de viver mais 1/4 de século, eu digo quais foram as conclusões. E se não cegar até os 50? Bem, pelo menos quero ter tomado a decisão de caminhar aprendendo a abandonar meus fardos, do lado de quem pode carregar eles para mim — no caso, Deus de novo. Que venha a leveza. Que venha a graça!