Chuva e barro

Há chuva em mim.

Não de milagre e fertilidade,

Mas de lamento,

Choro,

Sem uma gota externa

Expressa.

“Chovo” por dentro

E me alago na angústia

Sem resposta à pergunta

“Por quanto tempo mais

Trairás a ti mesmo?”

Sinto-me enlameado

E esta lama me engole

Torna-me no que sou:

Terra e barro,

Sujo e sem esperança

Parece.

Pereço

E triste,

Quase esqueço:

É possível plantar

E brotar

Em terra molhada

Pela lágrima do arrependimento!

Choro em esperança

De me tornar companheiro de mim

Nada de impostor

Submisso ao autor

E jardineiro

Do que posso vir a ser.

Suspiro

E espero.

Amizade e a estrela

Se a estrela é toda a riqueza do céu

Seu valor passa a ser ínfimo

E o mistério do que é infinito

Continua inexplorável

 

Ao passo que

Se as constelações me inspiram

A mergulhar em anis desconhecidos

Aí sim encontro valor em viajar

Na beleza de cada estrela

 

Há coexistência de sentido:

Da estrela ser parte do todo que desejo sondar

E passo a caminhar ao seu lado

Ser seu amigo e cúmplice

De verdades gêmeas

Nascemos para o mesmo fim:

Desfrutar da beleza do intangível

E voar

 

Se sua companhia é todo o sentido da caminhada

Restará à ti apenas Afeição

E o mistério de sermos dois amigos (viajantes)

Não existirá, pois não haverá caminho

 

Ao passo que

Se o caminho torna-me um explorador

E nele encontro um irmão de caminhada

Sua companhia será um presente:

Não caminho só, pela verdade

 

Há amizade por um sentido:

Dois que caminham lado a lado

Absortos em um interesse comum

Imersos na luta de explorarem as constelações

E acabarem se tornando exploradores de si

Sendo mais de si mesmo quando compartilham

Do mesmo gosto por sonhar

E andar

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Baseado em trechos do livro “Os Quatro Amores” de C. S. Lewis

E lá vem Deus…

Comecei a fazer esse texto na época das enchentes na região serrana do RJ. Só consegui terminar agora…

“Prepararam uma canção,
Como a que desejo preparar,
Para que alguns se reconheçam
E vejam que meus olhos falam
Enquanto em silêncio está meu coração.
E é bem possível que chore,
Mas meu olhar está atento,
Quer penetrar a alma de quem sofre
E dizer o que do alto ouço:
Eu te vejo!”

Elevo os olhos para os montes. E estes são escombros que se deitam esparramados sobre as casas de irmãos meus, semelhantes meus. Parece não vir socorro de lá. Só se houve um choro sem som ou um clamor mudo, debaixo daquilo que pode ser a tumba de muitos queridos. Parece não haver esperança.

“E lá vai Deus, sem sequer saber de nós” é o que cantam com o penúltimo fôlego que lhes restam. E com o ultimo me perguntam “o seu Deus, onde está?”.

Como as águas que dessem torrenciais contra aquelas cidades e devastam vidas e sonhos, assim são as ondas de tristeza na alma angustiada de quem vê perder um amor, um amigo, uma caminhada inteira. As lágrimas, que inundam os corações tal qual as enchentes, tornaram-se o alimento diário de muitos. E a pergunta ainda ecoa “o seu Deus onde está?”

O meu Deus. Ele não é de sumir. Pode permanecer em silencio, mas nada passa sem ser percebido por seu coração. E nessa esperança, permaneço com os olhos por sobre os montes. “E lá vem Deus, querendo saber de nós”. E não vem só. Traz consigo uma multidão de corações solidários dispostos a erguer os montes que estão sobre os que choram. Sim, lá vem Deus, o Deus que intervém sem ser percebido, com sua graça e misericórdia em forma de doações de roupa, alimento, esperança e um sorriso.

E lá vem Deus. Levantem-se. Ele ira consolar vocês.