Próximo ano completo 25 anos. Para mim é um marco importante, afinal soma-se um quarto de século. Uma vida inteira poderia encerrar-se aos 25 anos (exagero! rs), posto que com esta idade já seria possível ter experimentado boa parte das reflexões e sensações mais relevantes. A doçura inebriante do primeiro (segundo e terceiro) amor; a lança fria da morte penetrando seu coração e arrancando parte do seu ser; a descoberta de sua identidade e do sentido dela ter sido formada; o significado real de uma família (um porto seguro, mesmo em meio a tempestade sem fim); a importância vital de uma amizade, e de como o perdão preserva a vida; o desejo intenso de dividir a vida com alguém e de que alguém confie dividir a vida com você; a lição de que é preciso amadurecer, mesmo sendo tentado a viver na infantilidade; o valor da consciência e de que é importante se permitir chorar e sorrir na hora em que se tem vontade, e não na hora em que você deseja ser percebido como alguém sensível ou feliz para ser aceito; a beleza de viver a verdade e a leveza da graça, e de que “é melhor ser alegre que ser triste”.
Apesar de não ser um especialista em lidar com memórias, as que consigo resgatar do meu baú de reflexões mostram que vivi, até aqui, uma vida muito boa. Claro cheia de falhas, das quais me arrependo profundamente e, se fosse possível, teria escrito de forma completamente diferente. Mas existe aqui uma outra lição (belíssima, inclusive) que já pude vislumbrar no meu 1/4 de século: notas dissonantes podem compor de forma esplendida a melodia complexa e profunda da vida, tornando-a incrivelmente emocionante e profunda. Isso, claro, debaixo da regência de Deus, da sua supervisão. A verdade se encarregou de trazer a beleza, e a beleza alegrou meu coração.
Lendo até aqui, parece que estou prestes a me despedir, como se dissesse “combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”. Mas não é essa a intensão. Pode ser, sim, encarado como um texto de revisão de vida, mas não diante da expectativa do fim desta. É verdade que não descarto a triste fatalidade. Amigos meus morreram com menos de 25 anos. Contudo minha intensão se baseia mais na esperança de continuar vivendo. De forma mais poética, registro estas reflexões com a intenção de escrever uma poesia mais bela, uma prosa mais profunda, uma melodia que alegre os céus.
Mas diferente do pressuposto encontrado por trás da expressão “escrever uma nova história”, não quero ser o autor do tipo “deus”, como se tivesse o controle de todos os meandros que perpassam minha narrativa. Onisciência e onipotência são qualidades próprias do Grande Criador. Cansei um pouco de querer controlar tudo. Quero apenas submeter-me à vontade de quem pode todas as coisas — no caso, Deus. Gostaria mais de experimentar o sentimento “cantar o que vivo” e “viver o que canto”. Quero registrar o que vivo como observador, e viver o que escrevo/registro como um ser integro, guiado pela verdade. Sem cobranças, sem fardos. Acho que isso me faria encarar a vida com uma leveza maior. Veja bem, encarar com leveza. Não entenda aqui que decidindo registrar uma nova história, vou determinar momentos mais fáceis. Mesmo porque isso seria impossível para qualquer pessoa. Encarar com leveza está mais para viver como ser humano de verdade, reconhecendo minhas limitações, necessidades, mas também minhas virtudes e conquistas, além de olhar com sobriedade as erosões que vira e mexe surgem quando em tempos de seca, sem deixar de “esperançar”.
O que quero dizer na prática? Quero apenas viver, ao invés de ficar me impondo regras sobre como devo reagir diante de determinadas situações hipotéticas, ou como todas as lições aprendidas até aqui devem ser executadas sob minha supervisão e aprovação. Quem sabe assim, as tais lições tenham efeitos mais práticos e de formas mais naturais? Quem sabe esses efeitos acabam se tornando valores, que preservam a vida, os relacionamentos, a verdade, a justiça, ao invés de serem regras duras que nos engessam? Quem sabe eu me torne mais humilde e mais manso, por não ter a obrigação de estar sempre certo, sempre no controle? Quem sabe? É, eu não sei. Mas estou mesmo curioso para experimentar. Se for-me concedida a graça de viver mais 1/4 de século, eu digo quais foram as conclusões. E se não cegar até os 50? Bem, pelo menos quero ter tomado a decisão de caminhar aprendendo a abandonar meus fardos, do lado de quem pode carregar eles para mim — no caso, Deus de novo. Que venha a leveza. Que venha a graça!